A era da computação biológica começou: 200 mil neurônios humanos aprenderam a jogar Doom em 1 semana

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Em fevereiro de 2026, a startup australiana Cortical Labs demonstrou publicamente que seu sistema CL1 0 – um dispositivo que integra neurônios humanos cultivados em laboratório a um chip de silício – foi capaz de aprender a interagir com o jogo Doom após aproximadamente uma semana de treinamento. O experimento usou 200 mil neurônios e foi conduzido por um desenvolvedor externo via API Python, através da plataforma Cortical Cloud.

O resultado chama atenção não pelo jogo em si, mas pelo que ele evidencia: neurônios biológicos conseguem realizar aprendizado adaptativo em ambientes dinâmicos e incertos, algo tecnicamente distinto do que sistemas de IA baseados em silício fazem hoje. Isso é a computação biológica.

Como o CL1 funciona

O CL1 é um sistema autossuficiente. Neurônios humanos, derivados de células-tronco reprogramadas, são cultivados sobre uma matriz de 59 microeletrodos. Um sistema interno mantém as células vivas por até seis meses, controlando temperatura, filtragem e composição gasosa.

biOS (Biological Intelligence Operating System) faz a interface entre biologia e hardware: converte dados digitais em estímulos elétricos, envia aos neurônios, e interpreta os disparos resultantes como saídas computacionais. Toda a interação com o sistema pode ser feita via Python, sem que o usuário precise lidar diretamente com a parte biológica.

Em 2022, o experimento DishBrain usou cerca de 800 mil neurônios e levou 18 meses para que o sistema aprendesse a jogar Pong. O CL1 realizou uma tarefa mais complexa com menos neurônios e em uma semana de treinamento. A diferença reflete avanços no protocolo de estimulação e na arquitetura do sistema, não apenas na escala.

Um ponto de interesse para aplicações industriais é o consumo energético. Um rack com 30 unidades CL1 consome entre 850 e 1.000 Watts, enquanto uma única GPU Nvidia H100 consome cerca de 700 Watts. A comparação ainda é favorável ao biológico em termos de capacidade de aprendizado adaptativo por watt, mas é um campo em estágio inicial e as métricas ainda carecem de padronização para comparações diretas.

Modelo comercial

O CL1 é vendido por US$ 35.000 por unidade (ou US$ 20.000 em racks de 30 unidades). Para acesso sem compra de hardware, a empresa oferece o Wetware-as-a-Service (WaaS): tempo de processamento em neurônios vivos via Cortical Cloud, com cobrança por uso. Até 2025, 115 unidades já haviam sido enviadas a clientes e instituições de pesquisa.

A empresa foi fundada em 2019 por Hon Weng Chong e captou mais de US$ 11 milhões de investidores como Horizons Ventures e In-Q-Tel. As aplicações prioritárias são pesquisa em neurociência, triagem de compostos farmacológicos em neurônios humanos vivos e desenvolvimento de sistemas de IA com aprendizado adaptativo.

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